O sentido da Serra da Santa Cruz em Jeremoabo (BA)

 

Imponente e bela a Serra da Santa Cruz aguarda sua redenção

 O sentido da Serra da Santa Cruz em Jeremoabo (BA)

O fascínio da Serra da Santa Cruz reaparece vivo e pulsante em cada sexta-feira santa quando centenas de jeremoabenses sobem à montanha para as celebrações religiosas. E como sempre, sonhamos ... sonhamos ...

Sonhamos com uma Santa Cruz revitalizada e verdadeiro ponto atrativo ao turismo em nosso município. Lugar místico, visão privilegiada da cidade, a lenda do Cavaleiro, os contos das andanças de bandeirantes e cangaceiros, histórias de amor e fé. Tudo são ingredientes!

 

Alguns anos atrás publiquei um artigo sobre a Serra. Parece-me tão atual que vou retransmiti-la, na íntegra, sem correções.

  

VISOR: O sentido da Serra da Santa Cruz

Pedro Son[1]

 

Semana Santa, sexta-feira da Paixão. Como em todos os anos, centenas de pessoas dirigem-se para a visita na Serra da Santa Cruz ou Serra do Cavaleiro. Sobem e descem numa movimentação contínua que lota a estrada íngreme e escorregadia de pedras soltas que levam ao topo da Serra e a Capelinha lá construída. Lá em cima confraternizam-se, batem papo, revê amigos e ficam a deliciarem-se com a bela vista de nossa cidade e de nosso município, levando as visões bem mais além, lá no horizonte, onde é capaz de se ver um pedacinho do Rio Vaza Barris, a Serra da Torre de TV, o Estádio, o Parque de Exposições, o Centro da Cidade, etc. Ainda temos os pagadores de promessas: gente que leva pedras na cabeça para a subida, alguns que pagam de joelhos as dádivas recebidas, aqueles que deixam ao pé da santa cruz as suas cabeças, pés e mãos de madeiras, num acender de muitas velas e pipocar de vários foguetes. Isso vale a pena! Mas esse cotidiano pode ser realizado o ano inteiro, qualquer dia do ano, talvez sem o grande fluxo de pessoas neste dia. Qual o sentido hoje da subida neste dia? Acabamos o sentido religioso. Tempos atrás havia missa no local e os grupos realizavam via-sacra dando um verdadeiro sentido religioso ao dia. Lembro que, quando líder do Grupo de Jovens Católicos, realizávamos a subida, com vários jovens, rezando a via-sacra com foco sempre na Campanha da Fraternidade e apresentávamos uma peça teatral sobre a Paixão de Jesus. Só para citar alguns deste grupo tínhamos Lula e Aninha de Petinga, Rosely, Julinho, Ery, Carlos Hungria, Terezinha, meus irmãos Márcia e Jorge, Solange, Aninha Gama, Jaqueline, Vilmar, hoje Padre, era uma turma boa, pedindo desculpas a quem na hora não lembrei. Realizamos isso durante vários anos, conjuntamente com Antonio Chaves e o Grupo Senhor do Bonfim. Era proibido transgredir e o sentido era oração, penitência e reflexão. Outros grupos revezavam-se em orações na Capela. Aquilo preenchia nossa manhã. Depois, tudo foi tomando outro rumo e a subida começou a perder o sentido e transformar-se num local de bebidas e, consequentemente, ocorrência de fatos negativos que inibiram muitas famílias para lá se dirigirem. O que me pergunto é porque a Igreja Católica, ao invés de deixar a realização dos atos que fazia neste dia, preferiu ausentar-se, abandonar o local e suspender as atividades que davam sentido à visita neste dia, verdadeiros momentos de fé de nosso povo.

Por outro lado, esquecendo um pouco da reflexão religiosa mas pensando turisticamente, necessitamos fazer alguma coisa sim para darmos um sentido a Serra do Cavaleiro ou Serra da Santa Cruz, nosso cartão postal e um dos patrimônios turísticos mais importantes. Todos sabem de cor e salteado da história do cavaleiro que “sem temer nem mesmo a morte, no abismo se jogou para trazer pegado à unha, este boi arisco e forte”, cavaleiro anônimo, mas que deu um sentido diferente a Serra e ao município. Não há melhor lugar do que aquele para um Museu que conte nossa história, a história do cangaço e da formação do povo desta região do Nordeste, com estrada em paralelepípedos até lá, com Cineclube, auditório para conferências e seminários, barzinho, restaurante, etc. convivendo pacificamente com o turismo religioso. Sei que tudo depende do Poder Público e não quero que seja um sonho que se sonha só. Ou fazemos alguma coisa ou perderemos, sem sentido, um dos nossos pontos mais importantes. 

 

[1] Pedro Pereira da Silva Filho, Administrador de Empresas, MBA USP/FIA. Pós-graduado Administração de Cidades. Especialista em Docência e Metodologia. Secretário municipal Educação Jeremoabo (BA)

 

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