Bandidos, Coronéis e volantes no cangaço

Categoria: Policial
Criado em Segunda, 24 Dezembro 2018 20:17
Publicado em Segunda, 24 Dezembro 2018 20:17
Escrito por Pedro Son
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 O cangaço levanta e sugere discussões. Quem forma mais malvados: bandidos, coronéis ou soldados? 

 

Bandidos, Coronéis e volantes no cangaço

Pedro Son

 

A história do cangaço motiva o interesse de todos nós sertanejos, palco da vivência de Lampião e seus seguidores. Ficamos horas ouvindo histórias! Muitas vezes, sentimos dificuldades no entendimento de quem realmente mais maltratou nosso povo. Lampião era bandido. Os cangaceiros eram gente que fugia de algo tenebroso no passado. Então, um bando de foras-da-lei! Seria isso? Ou tábua de salvação de muitos que não tinha posses e direitos? E o papel dos coronéis nisso tudo? E as volantes? Defensores ou maltratadores?

Estou lendo o livro “Volta Seca”, de Robério Santos. Atraiu-me pelas citações a Jeremoabo. Aliás, não há livro fiel ao cangaço que não fale em nosso município. Em determinada parte do livro ele retransmite entrevista colhida numa tarde de março de 1944, pela jornalista Joel Silveira, então repórter do Globo. Vou me valer apenas de parte dela e contar um pouco da visão dos cangaceiros.

A entrevista reuniu Ângelo Roque, Saracura, Cacheado, Deus te Guie, Caracol e Volta Seca. Todos cangaceiros e presos. Uma roda de conversa reuniu todos com o jornalista.

A confissão começa com Cacheado:

- A gente matava como uns danados. E acrescenta – mas a culpa não era da gente. Se os homens educados não auxiliassem a gente com munição, a história seria outra. Não teria se dado nada do que se deu. Pensando bem, os criminosos são eles. Uma pessoa de bem não ajuda bandidos.

Ponto para reflexão! Sábias palavras. Tipo porque existe a corrupção? É preciso corruptores e corrompidos Qual o papel mesmo dos coronéis? Dos coiteiros? O que fizeram foi puramente ato de defesa?

 

O papo continua. E mais adiante o cangaceiro Cacheado tomou a palavra e lembra de dois coiteiros, António Caixeiro, do Nordeste de Sergipe, e do Dr. Odálio, de Pau Ferro, em Pernambuco.

- Quase todo dono de fazenda era coiteiro. Os coiteiros sempre foram a nossa perdição. Eles nos davam dinheiro, comida e munição. E eram sempre eles que nos entregavam aos macacos (policiais).

Volta Seca, atento a conversa, tenta inocentar os coiteiros:

- Eles tinham que ajudar a gente. Senão a gente queimava as fazendas deles e matava o gado.

A história de cada um, de como entrou para a vida de bandido de como se tornou cangaceiro, é contada uma a uma.

O repórter agora pergunta a Saracura: - E você Saracura, como começou essa vida de bandoleiro?

- A gente nunca sabe como se começa. Nunca se sabe. Uma coisa digo ao Senhor “ninguém nasce bandido”. Vamos dizer que aquele soldado casado não tivesse feito mal a minha irmã e tudo seria diferente. Eu continuaria na minha rocinha, talvez vivesse hoje umas economias, talvez até fosse dono do sítio. Nunca fui um homem da maldade. Depois que a gente vai pelo caminho é que é o diabo. O medo da prisão transforma o indivíduo numa fera.

O cangaceiro Caracol começa a falar e complementa Saracura.

- Por aí só se fala na crueldade dos bandidos. Mas o senhor ande pelo Sertão, converse com o povo pobre de lá: todo mundo dirá ao senhor que muito mais barbaridade do que nós, praticavam os soldados da força volante. E os coronéis também. Eu poderia citar casos e mais casos de coisas horrorosas que eles fizeram por esses Sertões. Bandidos como a gente. Por isto é que, em muitas cidades e povoados, nós, os “cabras”, éramos recebidos como salvadores. Em certos lugares, meu senhor, o povo tinha mais confiança na gente do que nos “macacos das volantes”.

Volta Seca aparteia e complementa:

- É isso mesmo: os crimes dos “macacos” foram iguais aos nossos. Mas nada aconteceu com eles. E com os coiteiros? Os homens importantes e ricos do Sertão que nos ajudavam, nos davam armas, dinheiro e comida, continuam ricos e importantes. Quando fui interrogado pelo júri, denunciei seu Petronilio de São José da Glória, aqui na Bahia, como o maior coiteiro de todo Sertão. Mas a denúncia ficou por isso mesmo.

Cacheado voltou com seu riso de menino.

- A gente matava muito, a gente matava como uns danados. Mas a polícia os coronéis matavam muito mais.

O cangaceiro Deus te Guie acrescenta:

- Seo Ângelo não gosta que a gente fale, mas é preciso que se diga que houve muita injustiça por esses Sertões. Por que foi que “Arvoredo” ficou criminoso? Por causa das barbaridades que os “macacos” fizeram com a sua família

E é Volta Seca que conta a história:

- O pai de Arvoredo vivia em Santo António da Glória. Numas eleições, o velho deixou de votar no chefe político do lugar. O Chefe mandou uma volante no seu sítio e eles fizeram horrores: estupraram as duas filhas e mataram os quatro filhos, inclusive duas criancinhas de berço. Só escapou Arvoredo, acabou bandido.

 

A conclusão deixo para cada um. Aqui tem um lado da história. Era preciso ouvir as volantes!